Acidentes Perfurocortantes

Em meados do século XIX, não havia anestesia, não existiam antibióticos, não se conheciam micróbios. As cirurgias eram de altíssimo risco, inclusive para médicos, que se contaminavam com cortes que infeccionavam e podiam ser letais. O tempo passou, surgiram a higiene de mãos, as luvas cirúrgicas, as soluções antissépticas, a esterilização de material, descobriram-se os micróbios, os anestésicos e os antibióticos, e a situação ficou relativamente controlada. A maior preocupação ficou sendo o tétano, para o qual havia vacina. Isso foi válido até os anos 80 do século passado, quando surgiu a AIDS. A investigação sobre a doença mostrou que, além do HIV, hepatite B, hepatite C, sífilis, entre outras, poderiam ser transmitidas não só pela transfusão de sangue ou contato sexual, mas pelo contato com objetos contaminados por sangue contaminado.

Hoje o material cirúrgico é esterilizado, utilizamos somente agulhas descartáveis com dispositivo antirreuso, e todo material é descartado em caixas apropriadas. Mesmo assim os acidentes ainda acontecem. Quando acontecem, o acidentado precisa buscar assistência médica para definir que conduta será tomada. O auxilio deve ser buscado o mais rápido possível, pois há prazo para o início do socorro com uso de medicamentos. Não se espera o fim do plantão para ir ao médico. O tempo de vida desses vírus no material contaminante, segundo os estudos, é bastante variável. Mas pode chegar a algumas horas; de modo que todo material deve ser considerado suspeito.

O acidente é avaliado por dois ângulos: se conhecemos a fonte (o paciente no qual foi usado o material que causou o acidente) e a gravidade do acidente. Se conhecemos a fonte, são feitos exames no paciente para identificar as doenças que poderiam ser transmitidas. Se der tudo negativo, ótimo. Se não, avaliamos a gravidade do acidente. São mais graves aqueles em que o objeto está visivelmente contaminado com sangue; objetos com luz (como agulhas de injeção) são piores que os sem luz (agulhas de sutura, bisturi); ferimentos mais profundos são piores que os superficiais.

Espirros de sangue que atingem olhos ou pele machucada também são considerados como acidentes. Pele sadia é relativamente impermeável e o acidente é considerado de menor gravidade.

Dependendo da avaliação, pode haver indicação de uso de medicamentos para HIV ou sífilis.

Qual a chance de se contaminar? Os estudos também mostram números bastante variados. Grosso modo, podemos dizer que nos acidentes graves podem chegar a 30 % .

A principal medida preventiva é o descarte correto dos perfurocortantes, nas caixas apropriadas, que devem estar disponíveis em todos os postos de enfermagem. Nunca reencapar agulha.

A chance de errar e se furar é enorme. Usar sempre sapatos fechados, para não pisar em algum objeto perdido no chão e para evitar que, eventualmente, uma agulha ou lâmina caia sobre seu pé .

As mesmas recomendações seguem válidas para fora do hospital. Se for fazer uma injeção, ter certeza de que o material não é reutilizado / compartilhado.

O mesmo vale para tatuagens feitas com agulhas.

Merece especial atenção a questão do material de manicure (alicates, espátulas, palitos).

Tenha sempre seu próprio kit, mesmo quando for ao salão de beleza. Não use de outras pessoas, não deixe que outras pessoas usem o seu. A contaminação através desse material existe e está bem documentada. O mesmo vale para lâminas de barbear. Nunca compartilhe.

Mulheres: nunca usem a lâmina de barbear do marido para depilação!

Dr. Alcides Poli Neto – INFECTOLOGISTA – CRM 41836